O que aviões e pterossauros têm em comum?*

29 de junho de 2022

Por: Camila Oliveira Alves

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Quem foi o pioneiro nos céus?

Nem Santos Dumont, nem os irmãos Wright! A Mãe Natureza fez primeiro.

Os pterossauros são um grupo de répteis alados que dominaram os ares durante o Mesozoico, cerca de 220 milhões de anos antes dos famosos inventores nascerem. Essas criaturas são conhecidas por serem os primeiros vertebrados voadores do planeta, tendo vivido por mais de 160 milhões de anos, antes de sua extinção. Eles precederam em muitos milhões de anos o aparecimento de outros vertebrados voadores como os pássaros e morcegos.

Por mais estranho que possa parecer, a comparação desses seres voadores com aviões não foi feita por acaso. Embora tenham existido pterossauros com diferentes tamanhos, estima-se que algumas das espécies teriam chegado à envergadura (isto é, medida da ponta de uma asa à outra) de até aproximadamente 11 metros (não tão diferente de aeronaves de menor porte) e pesando cerca de 200 Kg. Nesse contexto, o aparecimento do voo em tais espécies é resultado fascinante de um processo de acúmulo de adaptações ao longo da evolução desse grupo, uma vez que, para se manter no ar, os animais têm que ter várias características que favoreçam sua aerodinâmica.

Uma das estruturas usadas por engenheiros aeroespaciais para garantir maior aerodinâmica dos aviões são as carenagens ou também chamadas de canoas. Essas estruturas ajudam a diminuir a resistência do ar, aumentando a eficiência do voo da aeronave. Como a vida imita a arte, as penas dos pássaros e os pelos na região do pescoço dos morcegos funcionam suavizando o fluxo de ar, sendo, basicamente, formas de carenagem.

E os pterossauros? As asas desses seres são fascinantes por si só. Primeiro porque elas eram compostas por uma membrana, semelhante a dos morcegos. Contudo, diferente dos mamíferos voadores, a membrana dos pterossauros partia do seu quarto dedo, que era extremamente longo. A estrutura membranosa abaixo do quarto dedo, recebe o nome de braquipatágio, e uma menor acima do dedo, é chamada de protopatágio. Agora, graças a um estudo de 2021, sabe-se que esses animais, assim como os aviões, morcegos e pássaros, também possuíam carenagens.

Um grupo de pesquisadores de Hong Kong utilizou fluorescência em amostras fósseis de pterodátilos (grupo dentro de pterossauro) e descobriu carenagens compostas de arranjos musculares na região do pescoço, ombro e braquiopatágio. Essa estrutura muscular provavelmente passava pela membrana, conferindo ao animal controle refinado no batimento das asas. Ao que tudo indica essa musculatura se desenvolveu a partir de algum complexo muscular externo, possivelmente o complexo trapézio-deltoide (musculatura dos nossos ombros, nuca e costas), o que indicaria uma função adicional a esses músculos de conferir força ao bater de asas e não somente diminuir a resistência do ar.

Apesar de parecer uma observação simples, estudos como esse nos levam cada vez mais próximo de compreender como esses magníficos animais do passado conseguiam se manter no ar, ocupando um nicho ecológico que, até então, nunca havia sido explorado por animais vertebrados.

Artigo fonte: Pittman, Michael; Barlow, Luke A.; Kaye, Thomas G.; Habib, Michael B. (2021). Pterosaurs evolved a muscular wing–body junction providing multifaceted flight performance benefits: Advanced aerodynamic smoothing, sophisticated wing root control, and wing force generation. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 118, n. 44. Doi: 10.1073/pnas.2107631118. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Fóssil de pterossauro com tecido muscular preservado (rosa). Extraída do artigo fonte.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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