Desvendando uma curiosa associação entre fósseis de peixes e de caranguejos*

26 de junho de 2022

Por: Martha Helena Chaves Magalhães

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Se você é um entusiasta da paleontologia do Brasil, provavelmente já ouviu falar da incrível Bacia Sedimentar do Araripe, um sítio paleontológico encontrado na divisa dos estados do Piauí, Pernambuco e Ceará. Nela, encontramos a Formação Romualdo, um jazigo fossilífero muito rico em biodiversidade fóssil, sendo assim, um local de estudo muito interessante. E hoje, este local vai ser o plano de fundo para contarmos sobre uma curiosa e incomum associação de peixes e caranguejos.

Os caranguejos descritos na Formação Romualdo são das espécies: Araripecarcinus ferreirai, Exucarcinus gonzagai e Romualdocarcinus salesi. As espécies E. gonzagai e R. salesi têm como característica dezenas de carapaças dorsais que são associadas a moluscos e equinoide. Já a espécie A. ferreirai é representada por um único exemplar, cuja porção ventral da carapaça é preservada e associada a um peixe, o Vinctifer comptoni. Após divulgarem essa curiosa associação, nenhum outro caso semelhante havia sido descoberto na região, até cientistas encontrarem quatro concreções calcárias com fósseis de peixes também associados a caranguejos no local. Qual seria a dessa rara interação?

Inicialmente, assim como os cientistas, você pode pensar: “O peixe se alimentava do caranguejo! ”, mas os estudos da morfologia dos dentes e do conteúdo estomacal preservados pela fossilização nos peixes dizem o contrário, apontando hábitos alimentares que não incluiriam o caranguejo. Então, seria a associação um fruto de uma instabilidade do ambiente? De primeira pode parecer ter sentido, afinal, uma mudança bruta e desfavorável poderia causar a morte dos organismos juntos. Mas, chegam os estudos contradizendo novamente, pois as análises dos estágios de desarticulação dos organismos não permitem afirmar que estes tenham morrido a partir do mesmo evento de mortandade.

Outra hipótese seria a de que o caranguejo estaria se alimentando do peixe, o que até faria sentido, pois caranguejos têm uma dieta onívora e podem se alimentar de matéria orgânica em decomposição. Mas os estudos vieram anulando mais essa hipótese, pois apontam que os peixes no local de sedimentação chegaram após a morte dos caranguejos. Por fim, levantaram outra hipótese que questionava se o que pareciam retos de caranguejo, na verdade seriam suas mudas. Entretanto, isso não se confirmou, pois a ecdise dos caranguejos se dá de tal forma que romperia uma região do animal, chamada de pterigostomial, que no fóssil aparece intacta. Mas então, o que será que explica essa curiosa associação?

Quando estudamos fósseis devemos lembrar que nada é tão simples e óbvio quanto parece quando mexemos com algo tão antigo e, além de todos esses fatores das hipóteses acima, devemos também considerar análises paleocológicas e paleogeográficas, ou seja, análises do ambiente e da geografia locais. Assim, depois dessa longa jornada que é fazer ciência, a hipótese final mais aceita e defendida pelos autores do artigo é a seguinte: os restos dos caranguejos mortos se depositaram primeiro no sedimento, e depois os peixes, com os quais foram encontrados juntos, dentro da concreção que se formou ao redor deles. Portanto, esta associação, na verdade, não reflete uma interação ecológica entre os indivíduos diretamente, mas sim uma preservação conjunta, favorecida, provavelmente, pela ação de um evento não seletivo, em um ambiente marinho no qual estas espécies viviam.

Artigo fonte: Prado, L. A. C. do, Lopes, G. L. B., Pereira, P. A., Araripe, R. V. C. de, Oliveira, D. H. de, Lemos, F. A. P., Nascimento, L. R. da S. L. do, Tomé, M. E. T. R., & Barreto, A. M. F. (2021). A incomum associação de peixes e caranguejos da Formação Romualdo, Aptiano-Albiano da Bacia sedimentar do Araripe, NE do Brasil. Revista Brasileira De Paleontologia, v. 24, n. 2, p. 149-162. Doi: 10.4072/rbp.2021.2.06. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Associação de peixe e caranguejos em concreção calcária da Formação Romualdo. Barra de escala igual a 5 cm. Extraída do artigo fonte.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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