Quando surgiram os animais?

22 de março de 2020

Por: Cristhian Dias Gomes

Você sabe qual é o animal macroscópico mais antigo do qual se tem registro? Um grupo de pesquisadores de diferentes instituições localizadas na Austrália, Rússia e Alemanha publicaram um estudo na revista Science que parece ter fornecido a mais nova resposta a essa pergunta. Ao analisarem um fóssil do período ediacarano (cerca de 600 milhões de anos atrás), cuja origem evolutiva era completamente desconhecida, os cientistas notaram a presença massiva de colesterois e concluíram que tratava-se dos restos de um animal basal.

O fóssil em questão refere-se a uma rocha de arenito encontrada em Lyamtsa, uma localidade rural da região do Mar Branco, na Rússia, que continha a impressão em relevo de um Dickinsonia — organismo oval de simetria bilateral que data de cerca de 558 milhões de anos atrás. Assim como ocorre com vários outros membros da biota ediacarana, não sabia-se ao certo se Dickinsonia seria um animal, um líquen (associação entre alga e fungo) ou um protista gigante, um ser vivo unicelular. A aparência “acolchoada” atribuída a esses indivíduos, a provável ausência de boca e intestino e o fato de eles possivelmente realizarem digestão externa, por exemplo, eram fatores que os aproximavam de grandes protistas modernos ao mesmo tempo que eram compatíveis com certos grupos de animais basais, tornando difícil a sua classificação. Tudo leva a crer, entretanto, que esse impasse está finalmente resolvido.

Os autores da pesquisa citada analisaram os restos orgânicos encontrados no fóssil a fim de mensurar os diferentes tipos de esteróis – um grupo de substâncias lipídicas (gorduras) de 27 a 29 átomos de carbono — presentes no material. Com isso, eles acreditavam ser possível desvendar a natureza do organismo fossilizado, visto que líquens, protistas e animais tendem a apresentar esses compostos em diferentes proporções. E eles não estavam errados! Baseados na investigação da composição dos restos do indivíduo ediacarano, do sedimento circundante e das áreas adjacentes, os cientistas concluíram que os esteróis dos Dickinsonia vivos deveriam consistir quase que exclusivamente de colesterois (pelo menos 99,7%), o que é um padrão encontrado em animais e apenas neles.

Dessa forma, o resultado desse estudo serve não somente para esclarecer a natureza taxonômica do gênero Dickinsonia, consolidando-o como o primeiro grupo comprovadamente de animais macroscópicos do qual se tem registro, como também para estabelecê-lo como um possível precursor da explosão de filos animais que ocorreu relativamente pouco tempo após o seu surgimento, no período Cambriano.

Artigo fonte: Bobrovskiy, I.; Hope, J. M.; Ivantsov, A.; Nettersheim, B. J.; Hallmann, C.; & Brocks, J. J. (2018). Ancient steroids establish the Ediacaran fossil Dickinsonia as one of the earliest animals. Science, v. 361, n. 6408, p. 1246-1249. Doi: 10.1126/science.aat7228.<Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Exemplar do gênero Dickinsonia com preservação de elementos orgânicos (comprimento total aproximadamente igual a 5,5 cm). Extraída da Figura 1B do artigo fonte.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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