Escrito em: 30 de abril de 2026
Por: João Pedro Araújo Pinto de Souza
Você sabia que é possível analisar tecidos de alguns fósseis vegetais? Isso se dá pelo processo de permineralização que resulta na preservação anatômica de tecidos e até mesmo células. Os pesquisadores C. Labandeira e T. Phillips, em 1996, se depararam com essas condições ao analisarem fósseis vegetais encontrados na Formação Mattoon, em Illinois – EUA, datados de aproximadamente 302 milhões de anos, correspondendo ao período Carbonífero Superior. Curiosamente, tal permineralização se restringiu às plantas, não conservando tecidos animais.
Nos fósseis encontrados, foi possível analisar a ocorrência de galhas, órgãos neoformados por hiperplasia e hipertrofia induzidos por organismos galhadores, em pecíolos de samambaias arbóreas da espécie Psaronius chasei. Essas galhas fossilizadas apresentavam câmara larval, internamente, cercada por um tecido nutritivo, utilizado na alimentação do galhador, seguido de um parênquima não modificado na qual é possível observar tecido vascular em seu interior. Também foi possível observar a existência de um canal de saída, que conecta a superfície peciolar e a câmara larval. Na câmara larval foi possível observar células vegetais não digeridas, além de grânulos fecais, denominados coprólitos, dispersos, com tamanhos distintos, além da própria região vazia que foi substituída por calcita.
Nos grânulos fecais foi possível observar células secretoras, as quais também são encontradas nos tecidos adjacentes. Esses coprólitos apresentavam distribuição na câmara larval distinta, além de quatro diâmetros diferentes. Tais tamanhos diferentes são característicos de variações intraespecíficas, dentro da mesma espécie, durante os estádios larvais. Isso indica que o galhador possuía quatro estádios larvais distintos.
A partir dos resultados, os pesquisadores confirmaram que a estrutura se tratava de uma galha de artrópode. Três fatores-chave contribuíram para essa confirmação: (1) evidência do consumo de tecidos da planta hospedeira, (2) tecidos contendo células hiperplásicas e hipertróficas ao redor da câmara larval e (3) um canal de saída da câmara larval. Esses três critérios são comuns em galhas de artrópodes, excluindo a possibilidade de serem galhas de vírus, bactérias ou nematódeos.
Entretanto, outros fatores contribuem para que essas galhas de pecíolo de Psaronius chasei sejam classificadas como de insetos holometábolos. Esse fatores são: (1) coprólitos sólidos com formato de barril e relativamente grandes com quatro tamanhos distintos, (2) presença de células parenquimáticas na câmara larval, que indica que houve uma maceração, entretanto o galhador não as ingeriu nem digeriu, sugerindo que esse animal apresentava um aparelho bucal mastigador e (3) a presença de um canal de saída. Essas três características são de galhadores holometábolos presentes atualmente. Entretanto, vale ressaltar que não pode ser completamente excluída a possibilidade de ser algum inseto não-holometábolo extinto, contudo, não há nenhuma documentação de galhadores que apresentam esse modo de vida.
Galhas de insetos são interações espécies-específicas, dessa forma estudos como esses são de extrema importância para entender a diversidade de galhadores e galhas na história do planeta, além de avaliar como aconteceu essa co-evolução. O estudo de galhas, fósseis e atuais, permite que uma base teórica seja estruturada para que, a partir de padrões evolutivos, possam ser realizadas predições evolutivas acerca desses sistemas.
Texto fonte: Labandeira, C.C.; Phillips, T.L. (1996). A Carboniferous insect gall: Insight into early ecologic history of the Holometabola. PNAS USA, v. 93, n. 16, p. 8470-8474. DOI: 10.1073/pnas.93.16.8470.
Disponível em: https://www.pnas.org/doi/abs/10.1073/pnas.93.16.8470.
Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem à esquerda: Representação da espécie Psaronius chasei. Imagem à direita: Anatomia da galha de pecíolo induzidas na espécie Psaronius chasei. É possível observar, da camada mais externa para a mais interna: epiderme revestindo um parênquima de preenchimento (não diferenciado), um tecido vascular entremeado nesse parênquima e um tecido nutritivo revestindo uma câmara larval, essa última contendo alguns coprólitos, também é possível observar a presença de um canal de saída do galhador.
Disponível em: Imagem retirada do próprio artigo de referência.
Texto revisado por: Henrique Tosta Hernandez e Alexandre Liparini.