Escrito em: 06 de maio de 2026
Por: Jeniffer Barbosa
Imagine encontrar uma cápsula do tempo intacta de mais de 100 milhões de anos atrás. Em 2005, durante obras rodoviárias para melhorar o acesso à Caverna de El Soplao, na Cantábria (norte da Espanha), cientistas se depararam com um verdadeiro tesouro paleontológico de âmbar, que começou a ser identificado em meados de 2007. É importante prestar atenção ao local da descoberta: El Soplao é uma verdadeira biblioteca paleontológica. Essa região, que durante o período Cretáceo representava uma área de transição entre ambientes continentais e marinhos em uma fase de regressão do mar, abriga um depósito com mais de 1.500 descobertas fósseis documentadas. Mais uma vez, revelou um achado espetacular: uma nova espécie de vespa extinta, descrita a partir de uma única fêmea completa e incrivelmente bem preservada por meio do encapsulamento promovido pelo âmbar.
Estou falando da Cretevania orgonomecorum, uma nova integrante da família Evaniidae, um grupo de himenópteros parasitas de ovos de outros artrópodes. Ela recebeu esse nome em homenagem aos Orgonomesci, um antigo povo de origem celta da região da Cantábria, historicamente conhecidos como “guerreiros sanguinários” por terem lutado bravamente contra o domínio romano na Península Ibérica.
Mas o que torna esta vespa tão especial? Para começar, ela está entre as maiores espécies já descobertas dentro do seu gênero. Por meio da microscopia tridimensional, tornou-se mais fácil estudar o inseto em detalhe, observando melhor suas características morfológicas, como asas, antenas e pernas bem preservadas. Esse himenóptero se destaca por apresentar detalhes únicos nas veias de suas asas e outras adaptações incríveis, como a presença de cinco anéis na ponta do seu ovipositor (órgão usado para postura de ovos), o que indica uma especialização funcional adaptada para contornar a dureza do material onde ela depositava seus ovos. A combinação de tamanho, forma e traços anatômicos não coincide com registros conhecidos de depósitos do Cretáceo na China ou em Mianmar, reforçando a teoria de ser uma nova espécie.
O gênero Cretevania já abrange cerca de 20 espécies fósseis preservadas globalmente em âmbar e depósitos de compressão rochosa do período Cretáceo. A descoberta da fêmea de El Soplao fornece dados cruciais para entendermos de forma mais precisa as diferenças entre essas espécies, ajudando a delimitar as fronteiras evolutivas de um grupo de insetos que se mostrou cada vez mais diverso.
Mas a grande “cereja do bolo” para a paleontologia é a sua utilidade geológica. Como esse gênero de vespas existiu exclusivamente durante o período Cretáceo, apresentando grande diversidade em ambientes de floresta e sofrendo rápidas mudanças na sua morfologia, os cientistas sugerem que o gênero Cretevania tem um enorme potencial para ser utilizado como um “”fóssil-guia””. Isso significa que, ao encontrar essas vespas em diferentes partes do mundo, geólogos e paleontólogos podem usá-las como um relógio biológico para datar com alta precisão a idade de outros afloramentos fósseis do final do Mesozoico.
Texto fonte: Peñalver, E.; Delclòs, X.; Álvarez-Parra, S.; Pérez-de la Fuente, R.; Sánchez-García, A. (2025). A new species of Cretevania (Hymenoptera: Evaniidae) preserved in Albian amber of El Soplao (Cantabria, Spain). Palaeoentomology, v. 8, n. 5, p. 491-501. Doi: 10.11646/palaeoentomology.8.5.6.
Disponível em: https://doi.org/10.11646/palaeoentomology.8.5.6.
Fonte e legenda da imagem de capa: Holótipo fêmea da vespa Cretevania orgonomecorum sp., preservada em âmbar e encontrada em El Soplao, Espanha. Imagem criada pela autora a partir de fotografia publicada no artigo, com edição realizada no Canva. A imagem da vespa foi retirada do artigo apresentado, e editado por mim na plataforma Canva.
Disponível em: https://doi.org/10.1017/jpa.2023.78.
Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.