Do passado ao presente: vegetação como “termômetro climático”

Escrito em: 03 de maio de 2026

Por: Cristiano Oliveira

Os esporos são estruturas muito pequenas envolvidas por uma “concha” que aumenta sua durabilidade, permitindo que eles sejam preservados por muito tempo, principalmente em solos úmidos como as turfeiras, que são solos saturados de água. Esses esporos preservados funcionam como um registro, podendo ser usados para deduzir como era a vegetação e o clima do passado, visto que as condições climáticas moldam a vegetação. Em um clima mais seco, não se espera encontrar grandes árvores, enquanto um clima mais úmido e quente permite a existência de florestas.  

Sabendo disso, pesquisadores investigaram as mudanças na vegetação em Santa Catarina até os últimos 40 mil anos. Eles coletaram solo em diferentes profundidades, sendo que, quanto mais fundo, mais antigo. Em seguida, analisaram o pólen para identificar os grupos de plantas dominantes em cada época, buscando entender o clima a partir da vegetação. 

Os resultados mostram que o clima da região nem sempre foi como o conhecemos. Hoje em dia, Santa Catarina tem um clima úmido e frio, classificado como subtropical úmido, mas já passou por períodos frios e secos, além de mais quentes e úmidos. No Pleistoceno médio, a mais de 126.000 anos, havia uma dominância de campos, sendo frequentes as gramíneas (capins) na região. As florestas eram menores, com uma vegetação adaptada ao frio e à umidade, e deviam estar restritas a vales. Nesse período, havia lagos com presença de plantas aquáticas, indicando um clima local muito frio e úmido. 

Os campos aumentam ainda mais no Pleistoceno Superior com o esfriamento regional. Já as florestas diminuem e perdem espécies de plantas, sendo a umidade do ambiente indicada pela presença de turfeiras. Ainda nesta época, a variação climática permitiu a expansão gradual das florestas. O fim do último período glacial, iniciando o Holoceno a 11.700 anos, trouxe um clima mais quente e úmido que permitiu que as florestas se expandissem com uma diversidade da flora maior.

No fim, o estudo mostra que a vegetação e seus restos podem funcionar como “banco de dados” mostrando características climáticas do passado. Além disso, a vegetação nessa região variou muito até os dias de hoje e entendendo essas variações do passado, podem ser feitas previsões de como a vegetação lidaria com os efeitos das mudanças climáticas futuras.


Texto fonte: MORAES, Isis Fumagalli de; PONTELLI, Marga Eliz; PRIMAM, Gisele Leite de Lima. (2025). Dinâmica vegetal nos últimos 40.000 anos em turfeiras minerotróficas da Estação Ecológica Mata Preta, Planalto Subtropical com Araucárias – oeste de Santa Catarina, Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia , [S. l.] , v. 3, pág. e20250508. 

DOI: 10.4072/rbp.2025.3.0508. 

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/508.

Fonte da imagem de capa: Floresta Ombrófila Mista, vegetação típica do local do estudo.

Disponível em: wikimedia, Aacorreiajr.

Texto revisado por:  Luís Filipe Cardoso Queiroz e Alexandre Liparini.

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