os mamíferos sempre cresceram tão rápido?

Escrito em: 8 de dezembro de 2024

Por: Lucas Fernandes Rezende


Ilustração feita pela artista Maija Karala que projetou as características físicas da espécie Krusatodon kirtlingtonensis. Foto: Reprodução/X: @gsciencelady

Pequenos mamíferos atuais como ratos, camundongos, musaranhos e preás demoram muito pouco para chegar até a fase adulta e possuem vidas relativamente curtas, como por exemplo a espécie Rattus norvegicus – ratinhos de laboratório –  que demoram até 49 dias para a maturidade e vivem entre 1 e 3 anos. Mas será que isso sempre foi assim? Um artigo publicado na Nature no ano de 2024 mostra que provavelmente os ancestrais dos mamíferos demoravam muito mais para crescer e tinham vidas mais longevas.  O estudo analisa os fósseis, de dois indivíduos da espécie mamaliforme Krusatodon kirtlingtonensis que viveram no período Jurássico, há 166 milhões de anos. 

Mas afinal, o que é um mamaliforme? Podemos pensar em mamaliformes como uma linhagem mais ampla e antiga que a dos mamíferos (Mammalia). Sendo assim, o grupo dos mamíferos está dentro de um agrupamento maior, mamaliforme, que inclui outras linhagens extintas como é o caso do Krusatodon kirtlingtonensis. Assim, todo mamífero é mamaliforme, mas nem todo mamaliforme é mamífero.

Estudar estes grupos permite que nós possamos compreender melhor quais características dos mamíferos atuais surgem dentro deste grupo e quais são divididas com os grupos próximos. Neste estudo, a característica é a capacidade de se desenvolver rapidamente e atingir eficientemente a idade reprodutiva. E, para entender isso, a equipe de membros dos Museus Nacionais da Escócia estudou dois fósseis:  um de um adulto e um de um juvenil. O primeiro, deve ter morrido em torno de sete anos de idade. Já o segundo, entre seis meses e dois anos e apresentava indícios de ainda estar em fase de amamentação, que é um indicador de que os pais já cuidavam dos filhotes! Eles chegaram a essa conclusão comparando a dentição dos dois exemplares, o mais jovem ainda não havia feito a troca de seus dentes de leite enquanto o adulto já tinha a dentição permanete.

Imagem retirada do artigo original demonstrando o interior do crânio do indivíduo mais jovem. Observe em verde os dentes em erupção dentária. Em púrpura, dentes molares; azul, pŕe-molares; vermelho, caninos; amarelo, incsivos.

Ao fim do trabalho, os pesquisadores sugerem que estes animais tinham um desenvolvimento lento e viviam bastante se comparado com mamíferos atuais de mesmo tamanho (como ratos). Isso pode significar que a capacidade de atingir a idade reprodutiva rapidamente —bastante presente em grupos como os roedores— surgiu posteriormente na linha evolutiva. E não só os pequenos mamíferos, mas também os maiores, como a gente, também se beneficiaram dessa capacidade, Imagina passar mais alguns anos na puberdade? Ainda bem que se desenvolver rapidamente foi uma característica favorecida pela evolução.

Agora, novos estudos com outros exemplares de mamaliformes e até mamíferos mais basais podem fortalecer essa hipótese e, a partir dela, abrir uma nova gama de perguntas a serem pesquisadas. Essa descoberta nos faz repensar como os mamíferos conquistaram o mundo. O que mais podemos aprender sobre nossos ancestrais ao explorar fósseis tão antigos? A ciência ainda tem muito a desvendar.

Texto revisado por: Damiane Mello Andrade e Cruz e Alexandre Liparini.

Texto fonte: Panciroli, E., Benson, R.B.J., Fernandez, V. et al. Jurassic fossil juvenile reveals prolonged life history in early mammals. Nature 632, 815–822 (2024). https://doi.org/10.1038/s41586-024-07733-1.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-024-07733-1.

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